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Entre os Muros da Escola

13 mar 2009

written by Memória Cinematográfica

Pode ser uma forma de entender como se comportam os adolescentes das escolas, assim como os professores dentro da sala de aula e nas salas deles, além de ser uma forma divertida de se recordar dos tempos de colégio (e talvez ter saudade). Mas, mais do que isso, “Entre os Muros da Escola” (“Entre les Murs”) é o filme francês que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado e que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu para “Departures“, representante do Japão. Ou seja: um filme prestigiado, premiado e muito, muito bom.

Embora o longa-metragem chegue aos cinemas nesta sexta-feira, 13 de março, na quarta, 11, o diretor Laurent Cantet participou de debate mediado pelo crítico de cinema Sérgio Rizzo, com a presença de Laís Bodanzky, diretora de “Chega de Saudade”; Julio Groppa Aquino, da Faculdade de Educação da USP; e José Ernesto Bologna, do Colégio Bandeirantes. Na ocasião, além de discussões sobre a produção, os presentes aproveitaram para falar sobre educação.

Para o longa baseado no livro homônimo escrito por François Bégaudeau (Martins Fontes, 260 páginas, R$ 29,90), o diretor selecionou o próprio François para fazer o papel do professor e para co-roteirizar a fita que se passa o tempo todo dentro de uma típica escola localizada no “20ème arrondissement”, bairro de Paris onde há miscigenação de habitantes e muitos imigrantes, brancos e negros.

No começo do filme, as imagens mostram a apresentação dos professores no início do ano letivo. Eles se apresentam, dizem seus nomes e há quanto tempo estão na escola. Em seguida, François vai para a sala de aula e pede aos alunos de sétima série, entre 13 e 15 anos, para fazerem o mesmo. A partir de então, está travada a relação que existirá ao longo do ano entre os alunos e o professor que leciona francês, justamente fazendo com que o idioma seja motivo de conflito cultural, principalmente porque entre os alunos, assim como no bairro onde estão, alguns são provenientes de diferentes países, colônias francesas ou não. Outro detalhe são as gírias usadas, vindas do gueto. Um típico exemplo de colonizadores e colonizados, mas também de conflito entre adultos e adolescentes; um querendo mostrar respeito, e o outro desafiando sempre.

Nos diálogos, sempre intensos e extensos, há também improviso, uma vez que os alunos do filme são também alunos da escola, ou seja, não são atores preparados nem receberam um roteiro para decorar. E, com a câmera nervosa, muitas vezes na mão, Laurent Cantet mostra como eles se comportam, como vivem dentro da escola, sobre o que discutem etc. “A linguagem tem a própria riqueza, com humor e sarcasmo, e é preciso reconhecer esta beleza”, diz Cantet.

Como o filme mistura ficção com toques de documentário, tem-se a nítida impressão de que aquela sala de aula pode estar em qualquer lugar do mundo. “O limite entre ficção e documentário é uma linha muito fina e isso me agrada”, confessa.

Sobre a escolha de atores não-profissionais, Cantet afirma que apenas algumas pessoas sabem o que acontece entre os muros da escola. Para selecionar os alunos que comporiam o elenco, o diretor organizou workshops de improvisações e cerca de 50 se inscreveram. Durante o período, alguns desistiram. “Foi como fazer um casting, sem fazê-lo. E os 24 que ficaram até o final são os que estão no filme”, completa ele.

Como o filme todo se passa dentro da escola, sendo a maior parte na sala de aula, o diretor diz que filmar sempre com o mesmo cenário lhe deu medo no início. “Medo de as pessoas ficarem entediadas, e no final fiquei contente. Parei de ter medo de aborrecer o espectador porque, como fui o primeiro, não me senti entediado”, diz.

O filme retrata também um raio-x de como está a escola hoje em dia. “O filme talvez dê uma pista sobre como é possível melhorar as escolas”, diz Cantet. Na verdade, seu filme não dá respostas, não mostra o que aconteceu com os bons e com os maus alunos. Como se trata de um filme francês, mais uma vez ele dá a chance de o espectador escolher o final ou ao menos refletir a partir dos ingredientes fornecidos durante a projeção. Ele coloca muitas perguntas e não dá as respostas (ao contrário de produções hollywoodianas, por exemplo). Tenta mostrar o exemplo de uma escola democrática, onde as representantes de classe, aliás, participam da reunião do conselho.

“Na classe, há uma mistura étnica, cultural. Lugar onde a democracia pode ser testada.” Ou seja: trata-se de um microcosmo da França, onde há choques entre as diferentes culturas.
Os personagens que mais se destacam, ou seja, aqueles que mais dão trabalho para os professores, no conselho de classe, inclusive, são Souleymane (Franck Keïta), garoto que é levado para a diretoria por muitas vezes, não faz as lições de casa nem leva o material para a sala de aula, Khoumba (Rachel Régulier), que é logo chamada de insolente porque se recusa a ler quando o professor lhe pede e Esmeralda (Esméralda Ouertani), um pouco arredia quando o professor lhe pede para escrever seu nome e colocar à mesa, que provoca conflitos entre alunos e o professor e no final diz que leu “A República”, de Platão.

“No dia dessa cena, François conversou com ela sobre o livro. Antes de rodá-la, eu pedi que ela falasse sobre Sócrates como se o conhecesse pessoalmente. Na primeira tomada, ela deu uma interpretação do livro que foi ao mesmo tempo precisa e incompleta. Aquilo me emocionou muito; imagino que seja isso o que os professores sentem em momentos assim”, disse no material distribuído para a imprensa.

Imagino que os professores se emocionam, assim como os espectadores poderão se emocionar. No entanto, há espaço também para se pensar em como a profissão é desvalorizada, como os professores ganham pouco para, muitas vezes, aguentar desaforos, desrespeito e até alunos que os enfrentam para que eles sejam punidos. Momento de refletir, pensar sobre o assunto e tentar, cada um, procurar a solução conveniente a cada situação.


About the author

Jornalista, com pós-graduação em Crítica de Cinema

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